A primeira coisa que quero deixar claro é que não sou contra o uso do Instagram muito menos da fotografia digital. Não tenho o pensamento retrógrado de que tudo que é analógico é melhor.

Muita coisa mudou desde 1980. Os smartphones cada vez mais dedicados à fotografia vão mudar muita coisa ainda. Minha grande preocupação na verdade é com a essência e não com a forma. Eu quero fotografar e ver fotografias que possuam profundidade, história e sentimentos… de plástico e sem vida basta a realidade que se descortina todos os dias.

A Primeira Era – O Princípio de Tudo

O começo da fotografia foi analógico e como dizem alguns fotógrafos mais velhos: “no dedo”. Isso não quer dizer necessariamente que eles faziam fotos melhores que os fotógrafos da era digital, mas que tinham muito mais trabalho que nós. A fotografia da década de 80 é vista com nostalgia, envolta nas nuvens do saudosismo e retratada como a verdadeira fotografia.

Reprodução: zealousgood.com

Reprodução: zealousgood.com

Concordo em partes: sem a primeira era não haveria a segunda era. Tudo evolui e sofre atualizações, contudo nem sempre “atualização” é sinônimo de “melhorias” (basta ver a atualização que o app do Yahoo! Mail recebeu) e com o fim dessa era perdeu-se um pouco da criatividade, do olhar apurado e da mágica que a fotografia analógica tinha.

A Segunda Era – Adolescência Rebelde

Não houve apenas perdas com a segunda era da fotografia – a fotografia digital. Ganhou-se praticidade, difusão da fotografia e infinitas possibilidades de edição. Eu nasci na era digital e gosto dela. Gosto de fazer minhas fotos, editá-las (quando necessário) e postá-las no Facebook ou na galeria do Verena, gosto de nunca ver meu cartão de memória encher por mais fotos que faça e de ter a facilidade de trocá-lo sempre que quiser.

Reprodução: Pavan Fotografia

Reprodução: Pavan Fotografia

A fotografia digital quebrou paradigmas, destruiu limites e empurrou uma Genki-Dama goela abaixo nos fotógrafos mais resistentes à nova era que diziam que ela não iria durar ou sobreviver. Quem antes não possuía acesso à fotografia por ser muito caro agora poderia registrar seu modo de ver o mundo por preços mais acessíveis! As fabricantes de câmeras adoraram a ideia: antes uma câmera mecânica era feita e durava tranquilamente 30 anos ou mais; hoje temos um modelo novo por ano, basta acompanhar a sequência da Canon com a T3 e a mais recente e insossa Nikon D610.



Entretanto, esse modelo de vendas dá sinais de fadiga: segundo o Financial Post, no geral, a venda de câmeras fotográficas caiu 36%, sendo que a Canon vendeu 26% menos, a Nikon 18,2% e a Sony e Fuji ficaram com 35% de queda nas vendas de câmeras. Esses números derrubaram as ações da Canon em 7% e da Nikon em 33% na bolsa de Tóquio. A Nikon tem 78% de seu faturamento derivado só das vendas de câmeras fotográficas. As grandes fabricantes aproveitaram a era digital da fotográfica para criar uma grande bolha que está prestes a estourar com a chegada da terceira era fotográfica: a era mobile.

A Terceira Era – Em Todo Lugar

Com o mercado de câmeras fotográficas desacelerando gradativamente a cada trimestre, chegando a cair de 10% a 15% no caso das DSLR’s, a era mobile surge com força para revolucionar mais uma vez o mundo fotográfico. Existem projeções que afirmam o domínio de 60% do mercado por smartphones… gente, isso é muita coisa.

Fotografia feita no Instagram #underwater | Reprodução: Leo Moreno

Nos últimos 15 anos quebraram-se as correntes que prendiam a fotografia ao chão; agora ela pode ir a lugares que nunca havíamos imaginado (ajudada por smartphones à prova d’água, por exemplo). Neste cenário, uma personagem foi a grande mola propulsora: o Instagram e seus 80 milhões de usuários amadores, profissionais e entusiastas. O Instagram causou uma mudança de hábito inacreditável e não é complicado de entender.

instagramA vontade de se socializar, o acesso a smartphones mais dedicados à fotografia e aquele comichão de se postar tudo nas redes sociais (leia-se Facebook) conferiram poder ao aplicativo que antes estava restrito aos meios de comunicação. Você já percebeu como as notícias chegam mais rápido ao Twitter e ao Face pelos olhos do Instagram do que pelas lentes do jornalismo ao plantão televisivo? Tudo é integrado, conectado, rápido e difundido.

A Polêmica do Instagram

Kate Bevan, do The Guardian, garante que os filtros do Instagram são “artifícios baratos” para tentar melhorar fotografias ruins, ou seja, hoje se tenta criar uma aura especial a fotografias comuns por meio de efeitos e filtros, os quais, segundo Bevan, ajudam a retratar imagens de má qualidade com senso “pseudo-artístico” sendo a “antítese da criatividade”. Bevan completa dizendo que “Eles (os filtros) fazem com que todas as imagens tenham a mesma aparência. Eles não necessitam de análise ou de um processo criativo: um clique e tudo está feito”.

As afirmações de Bevan encontram apoio no jornal The Atlantic Wire o qual acredita que o que é chamado de democratização da fotografia é, na verdade, uma grande farsa. A publicação afirma que a qualidade de grande parte das imagens é totalmente questionável, o que faz do Instagram uma rede superficial.

Reprodução: http://www.digitaltrends.com

Reprodução: http://www.digitaltrends.com

Que pessoal bruto! Eu nunca usei o Instagram, contudo concordo em partes com as opiniões relatadas acima. Mudanças sempre são complicadas e não agradam a maioria das pessoas… fico pensando se o que sinto hoje com relação a era mobile não foi algo parecido com o pessoal das antigas, da era analógica, em relação a era digital.

Instagram Is é um filme que mostra que além de um aplicativo social, o Instagram se tornou uma forma de expressão e criou uma comunidade de caráter onipresente, que vive nas telas, na nuvem e no digital mas, ao mesmo tempo, afastada dos cliques em suas jornadas analógicas. É uma visão diferente do que Bevan afirma ser o Instagram.

Assista ao projeto Instagram Is:

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A pergunta do dia é: como você se sentiria ao ver pessoas se dizendo fotógrafas fazendo fotografias, pós editando em photoshop porcamente e ganhando dinheiro ao cobrar um preço menor que o seu sem o mínimo de conhecimento sobre luz, diafragma, obturador e etc?

Meu sentimento para com a era mobile é parecida: hoje o mercado fotográfico é muito concorrido e exige cada vez mais diferenciais para que se destaque da multidão. De repente chega uma pessoa com seu Lumia 1020, faz fotos fenomenais, se diz fotógrafo e até ganha dinheiro!

Não se esqueçam que estou generalizando, estou falando do todo para termos uma noção do que acontece no geral

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A revelação fotográfica era algo mágico na era analógica e a edição decente em photoshop exigia horas e mais horas em frente ao pc na era digital, mas com a era mobile e o uso de filtros tudo isso foi por água abaixo. Basta registrar a imagem, editar no próprio celular e postar na web… tudo muito rápido e fácil.

Conclusão

O Instagram é o vilão da história então? Não, claro que não. Ele foi a mola propulsora de uma era, mas de forma alguma pode ser o responsável pelos maus hábitos das pessoas. O problema não está na ferramenta, mas em quem a usa.

Infelizmente nossa geração de novos fotógrafos não possuem bases nem teóricas nem históricas. Todos querem ser fotojornalistas, registrar manifestações e até arrumar um emprego em algum grande jornal, mas ninguém quer saber quem foi e estudar Bresson; todos querem fazer fotos de prédios e arquitetura, mas quem conhece Nelson Kon? Quem senta e estuda história da arte, geometria desenho? Todos acham gostam de fotografar pessoas, porém não sabem do trabalho incrível de Irving Penn fez nem estudam iluminação para retratos.

A era molibe veio para ficar. Ela já mudou nossa forma de fotografar e compartilhar as imagens, eliminou a barreira da distância e do tempo… muita coisa ainda vai mudar.

O Instagram nem de longe é o problema… Apenas não quero que a fotografia acabe como algumas músicas do tipo Ylvis – The Fox (What Does the Fox Say?) que já possui mais de 126.562.252 acessos.

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Para você que felizmente não sabe inglês, segue a tradução:

“O cachorro faz au
O gato faz miau
O pássaro faz piu
E o rato faz squick
A vaca faz mu
O sapo faz croak
E o elefante faz fuuuu
O pato diz quack
E o peixe faz glub
E a foca faz ow ow ow
Mas há um som
Que ninguém sabe
O que a raposa diz?”

 

O que você acha? O Instagram é um vilão ou um herói?

 

 

 

 

 

 

 

  • Mirna

    Gosto muito de usar o instagram, mas uma coisa que notei (agora que tô entrando no mundo das DSLR iniciante) é que eu uso os filtros pra “embelezar” uma foto corriqueira e sem qualidade que o meu simples smartphone tira. A diferença é gritante ao ver a beleza de uma foto tirada com uma DSLR (sim sim o operador da câmera é o importante, mas sou iniciante então eu não conto muito =P), passei a foto para o meu celular e fui aplicar um filtro pra dar uma graça a mais…acabei deixando sem nenhum, porque no lugar de melhorar, achei que só encobriu a beleza da foto!
    Sendo assim, o instagram é uma ótima rede social….mas eu ainda fico com a beleza de uma foto “tradicional”. Hehehe.

    ps.: como sempre, me divirto com suas postagens!! =D

    • Olá, Mirna.

      O grande problema são pessoas usando os filtros e edições para estilizar fotografias tecnicamente ruins para as fazerem passar por “boas” fotografias. A pessoa sente vergonha de postar no face uma foto crua… existe uma necessidade de sempre editar todas as fotos. Esse é o grande erro.

      Agradecemos os elogios e aguardamos sua participação no “Espaço do Leitor”. Envie-nos uma foto feitas por você e nos conte a história dela!

      Obrigado pela presença no site

  • Olá, Renan.

    Obrigado por expressar sua opinião de forma cordial.

    Eu também acho que a era digital trouxe diversas facilidades à fotografia além de conferir uma enorme abrangência que na era anterior.

    O problema é que a “fotografia pensada” perdeu espaço e importância. Todos fazem fotos, editam e se acham ou se dizem mestres da fotografia quando na verdade não houve um pingo sequer de preparo, pensamento ou consciência para criar aquela imagem. Esse é o banalizar a fotografia.

    Ao mesmo tempo que a era digital facilitou muita coisa ela também trouxe muito lixo junto. Claro que alguns fica no saudosismo, dizem que a era anterior era melhor e que isso e aquilo, mas eu gosto da era digital e suas facilitações. Apenas fico triste com o tanto de fotografias mal feitas (por preguiça ou falta de estudo) essa era trouxe junto.

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